Textos psicanalíticos

Alguns desses textos, e muitos outros, fazem parte de meu livro Psicanálise e Filosofia: Fronteiras


  1. O VALOR DO SUJEITO
  2. INTEGRIDADE E DESINTEGRAÇÃO
  3. O CUIDADO SUFICIENTE
  4. A PULSÃO SEXUAL
  5. SOBRE O SER?
  6. O PONTO QUE É O HUMANO
  7. DESEJOS E SEUS LIMITES
  8. QUANTO A HISTERIA
  9. RAZÕES E AFETO
  10. ENTRE O ÉDIPO E A MÃE
  11. O TEMPO E O INCONSCIENTE
  12. A CURA EM PSICANÁLISE

O VALOR DO SUJEITO

Parece ser sempre importante considerar a questão do “sujeito” como a nossa questão estruturante. Diríamos que, a princípio, desde o nascimento – e, para muitos, como propõe o psicanalista Wilfred Bion, desde nossa estada no útero –, somos sujeitados ao ambiente, à criação; às relações extrafamiliares; à percepção de nós mesmos enquanto seres pensantes em corpo; o que esta coesão mente corpo faz de si mesma; as influências, também do ambiente dito natural, enfim, vale se refletir sobre a condição de não sermos indivíduos, logo, não sermos indivisos, monolíticos, e sim seres plásticos, adaptáveis, superadores do que até agora somos. Até que ponto nos reconhecemos livres o suficiente para criarmos a nós mesmos, sempre na condição de sujeitos, e ainda bem que sujeitos?


INTEGRIDADE E DESINTEGRAÇÃO

A integridade é fundamental para que nos reconheçamos, que possamos nos distinguir daquilo que não é nossa própria identidade e daí nos relacionarmos com tudo e com todos. Por outro lado, a desintegração nos permite acessar os desejos do inconsciente, nos dispõe a reformulações, à fruição, à visões de coisas sublimes, um mais além de nosso cotidiano. Ela, a desintegração, nos dispõe à própria criatividade, não apenas artística, mas no continuarmos o desenvolvimento de nós mesmos.


O CUIDADO SUFICIENTE

O desenvolvimento do bebê não depende apenas do fornecimento de provisões para o seu sustento físico, assim como de orientações, desvinculadas de afeto, no intuito de que este ser em formação absorva, tal qual esponja, os parâmetros para adequadas inserções sociais, essas com seus limites, censuras. É claro que as provisões materiais suficientes e limites sociais são imperativamente necessários, mas eles isolados não têm a plena suficiência para a formação do sujeito. Sob perspectivas mais sutis, uma dialética afetiva entre a mãe (ou outro cuidador) e o bebê, contínua – dentro dos limites humanos – observação deste ser em formação, ao qual ela, a mãe, está ligada; um acolhimento não pleno no cuidar, pois incapacitaria o bebê do experienciar um vazio necessário, uma falta que lhe impulsiona ir mais além: pensar, questionar, criar, ser. Condições ambientais que estimulem que este ser em formação seja a cada dia, pouco a pouco, mais complexo em suas relações, capaz de tornar-se si mesmo, seja este se tornar só ou acompanhado, que consiga, conforme as etapas de desenvolvimento, amar além da mãe, indo ao mundo. Isto é expressão de suficiência de uma mãe ou de seu substituto.


A PULSÃO SEXUAL

Aqui, prefiro evitar falar de inúmeras mazelas que historicamente foram implantadas no Espírito Ocidental – neste pelo menos – e que causaram, e ainda causam, torturas e mortes de milhões “em nome de Deus”. Sinceramente, para mim, a participação do Divino nesses genocídios é zero. A pulsão sexual, pensando pelo menos nos seres orgânicos, talvez seja a maior das energias existentes. Num recorte sobre a matéria, esta que também nos constitui, perguntamos: O que nos mantém vivos? O que nos mantém seguindo adiante? O que nos mantém reproduzindo? Tudo isto, mesmo conosco diariamente reconhecendo que a vida cultural, pelo menos na maior parte dos países, ainda é sob extremada pobreza, fome, em muitos com guerras e suas consequências, manipulações políticas para que nosso, da maioria, status quo permaneça ou até mesmo reduza, mas que continuemos a nos manter “confortavelmente anestesiados”. A Cultura nos sustenta, sim, mas só em parte, pois ela é ainda um resultado muito recente – possuímos cerca de 13, 12, 10 mil anos de história conhecida – e por demais cambaleante; fruto de razões temerosas para com as adversidades da natureza; mais adiante buscamos algum apaziguamento para com as próprias forças naturais: criamos os deuses; ainda mais adiante alcançamos o exercício mental suficiente para nos determos, muitos de nós, num único Deus; construímos filosofias e filósofos que, a princípio, se divinizaram para que suas palavras tivessem créditos; filósofos passaram a ser chamados de sábios, aqueles que sabem as verdades das coisas (uma aberração), e, com esta sabedoria bastante sistematizada, a utilizamos nas ciências. Porém, não esqueçamos das apropriações impróprias, feitas por ditos religiosos, da filosofia “pagã”, ou até o repúdio “absoluto” delas, mesmo as utilizando sub-repticiamente. E passaram-se 1.500, até 1.900 anos segundo Schopenhauer, de aprisionamento mental em torno de “questões religiosas”: “Deus quer isto”, “Deus quer aquilo”, “Ele me disse”, etc. Já a natureza, no corpo que nos constitui, tem milhões de anos. Há um entranhamento em nós mesmos que não titubeio chamar de sabedoria. Uma árvore com seus frutos, por exemplo, esses não existem para nos alimentar, mas para protegerem a semente. Qual o telos, o fim da natureza, da physis? A natureza é em função de si mesma, da vida. A potência persiste em atualizar-se. Ainda estamos com a matéria. Nada existe para que morais sejam validadas, para que felicidades nos preencham e outras tantas ocorrências do espírito. Pode até ser, mas não é este o caso. O espírito, a mente, ou o que quer que chamemos, é aquilo que depende da natureza, não o contrário. O ser só se dispõe quando há soleira. A história necessita da soleira. Se não há o tablado, também não haverá a existência humana, a história. E parece que o contrário não procede.


SOBRE O SER?

Reconhecer-se sujeito aos imperativos do inconsciente (ics); livre, pois pensante, mas desconhecedor de si mesmo; responsável, já que, para sermos, há o outro que evidencia o que nós mesmos somos ou almejamos ser; sentir (por todos os sentidos); perceber (refletir, espelhar); meditar (relacionar reflexões); cuidar do mundo por tempos; dizer (falar, escrever, posicionar-se, mesmo que se esquivando); sentir… Autoconhecimento (também pela análise); autopoiese (também através da análise): esculpir-se.


O PONTO QUE É O HUMANO

A intersecção, que é o humano, tem sido pressionada a uma mera horizontalização. A que me refiro? Duas linhas, uma animal (horizontalidade, só que outra), e a do pensamento (vertical), são unidas, e neste ponto interseccional situa-se nossa própria humanidade: somos pulsão entre a fera e algo eterizado, sublime. Porém, não apenas a partir da vertiginosa imposição da técnica, da planificação, da matematização do pensamento ocorridas no séc. XX, sendo ela a grande sofisticação de preparo ao que vivemos no séc. XXI e, quiçá, viveremos. Aquela intersecção, o humano, vem sendo desfeita com o vergar da verticalidade; mas como nossa porção animal não nos essencializa, já que somos um salto, um entre mundos, o vergar e o consequente unir das duas linhas, tornar este vergar uma totalidade, não numa intersecção, tende a não nos animalizar, mas o que tem ocorrido com o vergar do sublime é tê-lo enquanto instrumento para, outros se apropriando da força animal, nos submeterem mais aos planos meticulosos de tornar-nos a mão de obra perfeita: carne com anima e matematizada. Situamo-nos numa armadilha urdida há uns 300 anos. Enquanto possível solução para este labirinto, o saber sentir, saber perceber, saber meditar, refletir, saber criar, saber compartilhar, mantendo-nos vertiginosos, sem perder o animal que nos alimenta da Terra, sem perdermos as estrelas nem os outros vertiginosos como nós mesmos somos. Henri Poincaré, grande pensador francês, que produziu entre final do séc. XIX e início do séc. XX, através da obra O valor da ciência nos sinaliza: “O pensamento não é mais que um clarão em meio a uma longa noite. Mas esse clarão é tudo”.


DESEJOS E SEUS LIMITES

Como lidamos apropriadamente com nossos desejos inconscientes? Caso não tenhamos como elaborá-los, estando diante a eles, os teorizando (vendo), alcançando alguma compreensão, principalmente sexual, afetiva, os recalcamos – nisto, retornam ao Inconsciente ou perduram batendo nas portas anímicas, do psíquico, e na somática, na da corporeidade ou, noutro caso, “simplesmente” falando, do nosso corpo. Por outro lado, se nossa relação com outros de nossos desejos for reconhecida, em teoria, por nós enquanto sujeitos, (se conseguimos vê-los, mesmo que em vislumbres suportáveis, que não sejam vivenciados ipsis literis), em muitos casos os sublimamos, transferimos a outros pensamentos e ações palatáveis ao nosso gosto e do social a que nos submetemos, nisto, participamos na criação Cultural.


QUANTO A HISTERIA

A histeria, por motivos diversos – sendo aquela a que expressa censuras do Superego perante pensamentos “impensáveis”, desejos proibidos de emergirem do Inconsciente ao Consciente, e outros tantos barramentos –, detêm-se no corpo e no pensamento, mesmo estes permanecendo dissociados para o Consciente, enquanto causas uns dos outros; noutras palavras, sem a corporeidade. A impossibilidade de elaboração, que desse conta do próprio desejo no ato, ganha seu momento. A hybris, o excesso, “definida” enquanto tal pelo Superego, não tem lugar no mundo cultural, nas realizações sociais daquele sujeito; mas, como o vigor da libido é tamanho, o desejo lança-se e “realiza-se” corporalmente, porém, sem que pensamentos aos sintomas correspondentes alcancem as evidentes relações naquilo com que o corpo, de forma impactante, realiza, e, por outro lado, pensamentos, por vezes, insistem, só que, digamos, sob características ambientais lhes caracterizando como pedaços de sonhos distantes, vivenciados como sombras do desejo que não chegaram em toda sua inteireza ao anímico (ao psíquico): o que se deseja não se pode, mas ocorre, anímica e somaticamente, como dito, não relacionados, estando o Consciente refém num barco sem leme. Nesta metáfora, o sujeito vê paisagens (pensa), o barco singra o oceano (o desejo somatiza-se), mas sem leme, sem rota, sem parada.


RAZÕES E AFETO

A Psicanálise, em setting, não se caracteriza em lembrar racionalmente acerca daquilo que provoca dolorosas somatizações em determinados casos, de histeria, por exemplo, mas percorre caminhos, através da associação livre por parte do analisando, neste gerando aproximações às causas de seu sofrimento: suas falas, seus pensamentos, suas situações afetivas, sexuais, inconfessas para si mesmo, seus desejos detidos pelas malhas ferrenhas do pré-consciente, este filtro entre as pulsões do inconsciente e o consciente, este que dá conta de relacionar o próprio inconsciente com o mundo cultural, com a sociedade, para que sobrevivamos. Por vezes acreditamos ter-nos libertado por completo dessas malhas censoras, já que nossa contemporaneidade “já avançou em demasia, para ficar detida em coisas pequenas e ultrapassadas, e de culturas com mais de um século atrás de nós”, entretanto, nem todas as vanguardas do viver nos cabem, daí o incômodo, o sofrimento ao pensar, ao dizer, ao quase fazer aquilo que, em nossa existência ainda ou nunca caberá.


ENTRE O ÉDIPO E A MÃE

Para que o setting psicanalítico se estabeleça, a associação livre é imprescindível por parte do analisante – dentre outros importantes aspectos da clínica –, por aquela reduzir, significativamente, o poder do superego ao ego, pois, para que este último possa estabelecer relação possível do inconsciente com a sociedade – e esta com suas limitações ao sujeito –, negociações são feitas desde a fase fálica, por volta dos 5, 6 anos de idade, em que o Complexo de Édipo se impõe ao sujeito em formação, expondo limites através da figura do pai (ou de seu substituto), limites estes que se referem às relações entre a criança e sua mãe (ou substituta). Já, estando em setting psicanalítico, com estímulos para que afrouxamentos da censura na linguagem, concomitante a própria vontade que levou o analisando ao divã, assim como com outras contribuições, o sujeito se dispõe, e a lógica do inconsciente, aos poucos, passa para uma penumbra, e, desta, análises, interpretações vão a lume através do par analítico, os analisando e analista.


O TEMPO E O INCONSCIENTE

Passado, presente e futuro são dimensões sempre presentes na experiência humana. O tempo-do-ser – entendido aqui como expressão do inconsciente – é uma mistura de múltiplos processos psíquicos: desde mecanismos como recalque, repressão, pulsões (de vida e de morte), sintomas psicossomáticos

O sujeito, que é esse tempo-do-ser, é resultado de uma dialética constante entre si mesmo e o mundo que o afeta desde o nascimento (ou até mesmo antes, no útero materno). Nisto, o inconsciente é o próprio tempo histórico, carregado de marcas afetivas, pulsionais e simbólicas que são resultado da interação entre sujeito e ambiente.

Quanto à sexualidade, esta vai muito além do seu sentido genital, e sim, ela é um campo amplo de afetação, fruto dos atritos sucessivos entre o sujeito e o mundo. Desde os primeiros contatos sensoriais até os conflitos mais complexos da vida adulta, tudo é vivido como sexualidade, como energia de desejo e de sentido.

Já quanto à guerra sexual, podemos dizer que esta é necessária à reprodução, constatamos que é o caos um grande motor vital, pois a vida só se sustenta na tensão entre forças opostas (Eros e Thanatos).

Outro ponto importante que aqui precisamos salientar, é o modo como o sujeito, ao longo da sua vida, cede ao tempo do Outro, ao script social, afastando-se de seu próprio desejo, perdendo o “tempo do ato”, sendo reduzido a uma vida de reações condicionadas ao invés de ações genuínas.

Diante ao exposto acima, consideramos que a análise psicanalítica é um espaço possível para a retomada da escuta de si, a reinscrição do sujeito em seu próprio tempo, mesmo reconhecendo os limites dessa promessa, dada a própria natureza trágica e acidental da existência. A cura, se há, é apresentada como um reconhecimento mais profundo do inconsciente, permitindo um pouco mais de liberdade frente aos destinos histéricos, obsessivos, perversos ou, em certos casos, até mesmo aos psicóticos.


A CURA EM PSICANÁLISE

Esta é inseparável da temporalidade subjetiva e do modo como o sujeito se relaciona com sua história. A partir da escuta clínica, sabemos que o sofrimento psíquico frequentemente emerge de uma fixação temporal: um passado que insiste no presente sob a forma de traumas, fantasias, perdas e repetições, detendo o sujeito em um tempo psíquico que o impede de viver o “presente do presente”.

Muitos sujeitos atendidos em análise estão submetidos a um tempo morto, onde a vitalidade do presente é sufocada por um passado não simbolizado ou mal elaborado, o que compromete a capacidade de projetar o porvir. Nesse sentido, a cura não é entendida como supressão do sofrimento, mas como reintegração do sujeito à sua própria história — uma história que possa funcionar como provisão (passado simbólico) e pôr-visão (abertura ao futuro), sustentando o desejo e a responsabilidade pelo próprio existir.

Clinicamente, o processo analítico é como o percurso de um Teseu no labirinto do Minotauro: trata-se de enfrentar os conteúdos inconscientes que paralisam o sujeito, costurar significações aparentemente desconexas (alinhavos) e sair do labirinto não como quem apaga a dor, mas como quem reinscreve o sofrimento em uma narrativa que o fortalece no presente. A cura, portanto, reside na possibilidade de o sujeito ser-no-mundo, reconectado a um tempo próprio e a um desejo que não seja o do Outro.

Aqui articulamos conceitos como tempo, trauma, fantasia, pulsão de morte, masoquismo, niilismo e desejo. A prática clínica é escutar não só o que foi vivido, mas a escuta do modo como o sujeito sofre esse vivido no agora — e como esse sofrimento pode ser transformado em possibilidade de criação de si. Um retorno do passado ao seu lugar.